O que levou Trump a poupar Rússia e Belarus do tarifaço

Mais de 180 países e regiões são afetados pela medida. Mas Rússia e Belarus ficaram de fora. Washington alega não haver “comércio significativo” com Moscou. Mas tarifas impactam nações que exportam bem menos aos EUA.As tarifas globais “recíprocas” anunciadas esta semana pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entraram em vigor neste sábado (05/04), afetando mais de 180 países e territórios em todo o mundo. Notavelmente, algumas nações estão isentas – incluindo Rússia e Belarus, mas não a Ucrânia.

Em entrevista à Fox News, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, explicou que, de qualquer forma, não há comércio com a Rússia devido às sanções existentes. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, os EUA e outros países, principalmente os europeus, impuseram novas sanções contra Moscou. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, enfatizou que as sanções dos EUA relacionadas à guerra na Ucrânia impedem “qualquer comércio significativo” com a Rússia. Mas será que isso é verdade?

O que os EUA importam da Rússia?

De acordo com o Departamento do Censo dos Estados Unidos, o comércio de mercadorias entre os EUA e a Rússia caiu significativamente desde o início da guerra de agressão contra a Ucrânia: de cerca de 36 bilhões de dólares em 2021 para cerca de 3,5 bilhões de dólares em 2024.

Isso é pouco, mas também não é um “nada”. E, por mais baixo que seja seu valor monetário agora, as importações da Rússia são significativas para os EUA, pois também incluem produtos estratégicos, como fertilizantes e produtos químicos inorgânicos.

A ausência da Rússia na lista de Trump não pode ser explicada apenas pelas sanções e pela queda nos números de importação, porque os países com os quais os EUA compartilham volumes comerciais ainda menores estão na lista. Por exemplo, o governo dos EUA impõe tarifas de 27% sobre as importações do Cazaquistão, que tem um volume de comércio com os EUA semelhante ao da Rússia: cerca de 3,4 bilhões de dólares. O volume de comércio com a Ucrânia é ainda menor, 2,9 bilhões de dólares. No entanto, a Ucrânia está na lista de Trump – com uma tarifa punitiva de 10%.

Tarifas contra ilhas desabitadas, mas não contra Belarus

Embora a Venezuela seja um dos países sancionados na lista de tarifas de Trump, outros países que também estão sujeitos às sanções dos EUA permanecem isentos das novas medidas – incluindo Rússia, Coreia do Norte, Cuba e Belarus. “Isso parece uma leniência, que tem um caráter simbólico”, diz a cientista política e especialista em estudos americanos Alexandra Filippenko.

Os EUA não publicaram nenhuma cifra sobre o volume de comércio com a Coreia do Norte, Cuba e Belarus. De acordo com as estimativas das Nações Unidas, o comércio bilateral entre os EUA e Belarus, por exemplo, chegou a várias dezenas de milhões de dólares por ano. Em 2024, por exemplo, mercadorias belarussas no valor de 21 milhões de dólares foram importadas para os EUA.

A composição da lista de tarifas, portanto, não parece se basear exclusivamente no volume de comércio com um país. Isso é indicado, entre outras coisas, pelo fato de que até mesmo áreas minúsculas ou desabitadas, como as Ilhas Heard e McDonald – território australiano periférico no sul do Oceano Índico – tenham sido ranqueadas inicialmente, embora praticamente não haja comércio relevante com os EUA.

Também é notável que o Canadá e o México não constem da nova lista. No entanto, a maioria dos produtos importados de ambos os países já está sujeita a tarifas existentes de 25%.

Por que Trump não está impondo tarifas sobre a Rússia?

Alexandra Filippenko vê a decisão de Trump de não colocar a Rússia na lista de tarifas como um sinal político claro: melhorar as relações com Moscou é uma prioridade para o presidente dos EUA. “As autoridades russas entenderam o sinal político”, diz ela, referindo-se a uma postagem no Telegram do enviado especial do presidente russo, Kirill Dmitriev, que está atualmente em Washington. Nele, Dmitriev enfatiza que a restauração do diálogo entre a Rússia e os EUA é um “processo difícil e gradual” e que ambos os lados estão prontos para “construir cooperação – tanto em assuntos internacionais quanto na economia”.

A cientista política Nina Khrusheva, professora da New School, em Nova York, também vê os contatos diplomáticos entre os dois países como um possível motivo para Trump não impor tarifas à Rússia. “Acho que a pressão política será exercida sobre a Rússia de uma forma ou de outra, mas durante a visita de Dmitriev, as tarifas seriam contraproducentes”, diz ela em entrevista à DW, ponderando que o governo Trump pode, se quiser, impor tarifas à Rússia mais tarde.

Oleg Buklemishev, diretor do Centro de Pesquisa de Política Econômica da Universidade Estatal de Moscou, acredita que as decisões de Trump sobre a Rússia e a Ucrânia “carecem de qualquer lógica econômica”. Ele também vê a decisão de não impor tarifas adicionais à Rússia como “puramente política” – apesar das alegações de Washington de que o comércio bilateral é insignificante. De acordo com Buklemishev, o combustível nuclear, os fertilizantes e os metais de platina russos continuam a ser fornecidos aos EUA. Além disso, altas tarifas sobre esses produtos poderiam levar a altos custos de energia, o que não está nos planos de Trump.

Ao mesmo tempo, ele enfatiza que o volume atual de comércio com a Rússia não é comparável ao mercado europeu ou chinês e está muito longe dos níveis anteriores. No entanto, Buklemishev acredita que um retorno ao nível anterior de comércio entre os EUA e a Rússia é irrealista. “Mesmo que as relações fossem mais tranquilas, seria impossível voltar ao nível anterior. “Mesmo que as relações fossem amenizadas, seria impossível voltar aos níveis anteriores. As restrições financeiras, logísticas e relacionadas a sanções permanecerão em vigor, e a China já assumiu parcialmente o mercado russo.”

O post O que levou Trump a poupar Rússia e Belarus do tarifaço apareceu primeiro em ISTOÉ DINHEIRO.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.