Opinião: “Riscos da sustentabilidade da previdência pública no século 21”

Por Juan Schiavo*

A previdência pública é uma das mais importantes conquistas sociais da era moderna, assegurando renda aos trabalhadores aposentados, inválidos ou a seus dependentes. No entanto, esse modelo enfrenta desafios crescentes no século XXI, especialmente relacionados ao envelhecimento populacional e à sustentabilidade fiscal. Este texto propõe um breve panorama histórico da previdência pública no mundo, analisando suas origens, evolução e os riscos atuais e futuros.

A previdência social, como conhecemos hoje, tem suas raízes na Alemanha do século XIX. Em 1889, o chanceler Otto von Bismarck instituiu o primeiro sistema público de aposentadoria financiado pelo Estado, como parte de uma estratégia política para conter movimentos políticos de oposição e proteger trabalhadores industriais.

Esse modelo inspirou diversas nações ao longo do século XX, particularmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o Estado de bem-estar social se expandiu na Europa Ocidental. Nos Estados Unidos, o Social Security Act de 1935 marcou o início da previdência pública. Na América Latina, países como o Brasil adotaram sistemas contributivos a partir da década de 1920, com reformas e ampliações ao longo das décadas.

Após a devastação da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), muitos países, especialmente na Europa Ocidental, buscaram reconstruir não apenas suas economias e infraestruturas, mas também o pacto social entre Estado e cidadãos. O trauma do conflito e a necessidade de garantir estabilidade política e coesão social impulsionaram a expansão dos direitos sociais.

A previdência social se expandiu rapidamente no Ocidente democrático nas décadas de 1940 a 1970. Na América Latina, especialmente entre os anos 1940 e 1970, diversos países ampliaram seus sistemas de previdência com forte influência europeia, mas com características distintas. Alguns adotaram modelos corporativistas, com regimes específicos para categorias profissionais (militares, servidores públicos, trabalhadores urbanos). Houve uma segmentação dos sistemas, o que gerou desigualdades entre os beneficiários. O financiamento muitas vezes dependia de repasses estatais, sem equilíbrio atuarial, o que preparou o terreno para futuras crises de sustentabilidade.

Desse modo, apesar de lidarmos, muitas vezes, com o sistema previdenciário como se fosse uma política consolidada e perene, a verdade é que se trata de uma construção relativamente jovem na trajetória da humanidade. Sua consolidação, especialmente no período pós-Segunda Guerra Mundial, coincidiu com condições excepcionalmente favoráveis: uma demografia expansiva, com populações jovens e taxa de natalidade elevada; e um ciclo de crescimento econômico global impulsionado pela reconstrução da Europa, pela industrialização e pela ampliação do consumo de massas. Nesse cenário, a sustentabilidade dos sistemas de repartição parecia garantida. No entanto, esses pilares começaram a se enfraquecer a partir das décadas de 1970 e 1980, quando o envelhecimento populacional e a desaceleração econômica colocaram em xeque a viabilidade de um modelo construído sobre bases demográficas e econômicas que já não se repetem.

O Desafio do Envelhecimento Populacional

Os sistemas previdenciários públicos foram, em sua maioria, baseados no modelo de repartição simples, no qual os trabalhadores ativos financiam os benefícios dos inativos. Esse modelo pressupõe uma base populacional crescente, com muitos jovens sustentando relativamente poucos idosos.

Em contraste, o modelo de capitalização – no qual cada trabalhador contribui para sua própria aposentadoria, acumulando recursos ao longo da vida laboral – foi adotado por alguns países, como o Chile na década de 1980, como alternativa de sustentabilidade.

Com o aumento da longevidade e a queda nas taxas de natalidade, muitos países enfrentam um grave desequilíbrio demográfico. A proporção entre trabalhadores e aposentados vem caindo, comprometendo a solvência de sistemas baseados em repartição. Na União Europeia, por exemplo, estima-se que até 2050 haja menos de dois trabalhadores ativos por aposentado.

Esse cenário pressiona os governos a aumentarem a idade mínima de aposentadoria, reduzir benefícios ou elevar as contribuições – medidas impopulares, porém cada vez mais necessárias.

O Risco de Insustentabilidade Fiscal

O aumento dos gastos com previdência, somado à estagnação ou queda da base contributiva, coloca em risco o equilíbrio fiscal dos países. A previdência passou a representar uma das maiores despesas públicas em diversos orçamentos nacionais.

Se reformas não forem implementadas, o risco é de colapso do sistema, com atrasos nos pagamentos ou a necessidade de cobertura via endividamento público, o que compromete outras áreas sociais e gera instabilidade econômica.

As reformas previdenciárias são inevitáveis e, muitas vezes, dolorosas. Alguns caminhos possíveis incluem:

  • Adoção de sistemas mistos, combinando repartição e capitalização;
  • Revisão de regras de elegibilidade, como idade e tempo de contribuição;
  • Promoção da formalização do trabalho, aumentando a base contributiva;
  • Educação financeira da população, preparando para o envelhecimento com autonomia.
  • Incentivos à poupança complementar privada;

À medida que os sistemas públicos de previdência enfrentam limitações, o papel dos investimentos privados e do planejamento patrimonial de longo prazo ganha centralidade na estratégia de bem-estar financeiro das famílias. Em vez de depender exclusivamente de uma única fonte de renda na aposentadoria, indivíduos e famílias são chamados a estruturar portfólios que combinem ativos líquidos e ilíquidos, geradores de renda passiva, e que considerem diferentes horizontes temporais e perfis de risco. Fundos de previdência privada, planos PGBL e VGBL, carteiras de ações, fundos imobiliários, e até mesmo ativos alternativos, como investimentos em empresas ou imóveis, podem compor uma reserva sólida e diversificada para o futuro. Nesse contexto, o planejamento patrimonial deixa de ser um tema restrito a grandes fortunas e passa a ser uma necessidade para qualquer pessoa que queira envelhecer com dignidade e independência. Trata-se de organizar os recursos acumulados ao longo da vida de forma eficiente, considerando aspectos como sucessão, proteção do patrimônio, otimização tributária e liquidez intergeracional. A integração entre previdência pública, poupança privada e gestão patrimonial se torna, portanto, um tripé essencial para garantir segurança financeira em um mundo no qual a longevidade cresce, mas a previsibilidade dos sistemas estatais diminui.

*Artigo escrito por Juan Schiavo, economista e sócio da CIMO Family Office

As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

Leia mais colunas de opinião aqui.

Acesse o canal de vídeos da BM&C News.

O post Opinião: “Riscos da sustentabilidade da previdência pública no século 21” apareceu primeiro em BM&C NEWS.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.