28 de fevereiro em detalhes: o dia em que os médicos decidiram se deixariam o papa Francisco morrer


Após duas semanas hospitalizado, Francisco teve crise que agravou condição de saúde. Ao jornal ‘Corriere della Sera’, médico relatou bastidores e ‘milagre’ na recuperação do pontífice. Papa Francisco passou a primeira noite em casa, depois de 38 dias de internação
Aquela sexta-feira, 28 de fevereiro, amanhecia no Vaticano com uma boa notícia: o papa Francisco tinha deixado o estado crítico e melhorava aos poucos. Na ocasião, o pontífice completava duas semanas internado Policlínica Gemelli, em Roma, com uma pneumonia bilateral.
Mas não foi assim que o dia terminou. Poucas horas depois, um agravamento súbito levou a equipe médica a um dilema: deixá-lo morrer ou tentar um tratamento com terapias ainda mais agressivas, com riscos de comprometimento de outros órgãos. A informação foi revelada pelo jornal “Corriere della Sera” na terça-feira (25).
A seguir, o g1 reconstitui detalhes daquele dia determinante para a vida do papa.
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Madrugada: melhora e saída do estado crítico
As preocupações sobre o estado de saúde do papa Francisco começaram a se intensificar no dia 22 de fevereiro. Naquele dia, ele teve uma crise respiratória prolongada, e os médicos passaram a descrever a situação dele como crítica.
Seis dias depois, às 4h45 do dia 28 de fevereiro, pelo horário de Brasília, o Vaticano disparou um e-mail para jornalistas de todo o mundo atualizando o estado de saúde do papa. O texto dizia que Francisco havia tido uma noite tranquila e estava repousando.
Ao mesmo tempo, fontes do Vaticano disseram à agência de notícias France Presse (AFP) que o papa não estava mais em “estado crítico”. A informação foi vista como uma boa notícia entre fiéis do mundo todo que acompanhavam a saúde do pontífice.
Boletins anteriores da Santa Sé já sugeriam que Francisco vinha em uma trajetória gradual de melhora. Ainda assim, ele precisava fazer terapia com o uso de oxigênio e não tinha previsão de alta.
Durante a manhã do dia 28, segundo o Vaticano, Francisco recebeu a Eucaristia, orou em uma capela privada do hospital e fez fisioterapia respiratória.
A situação do pontífice, no entanto, piorou nas horas seguintes.
Uma estátua do falecido Papa João Paulo 2º fica do lado de fora do Hospital Gemelli
Reuters
Tarde e noite: piora e risco de morte
Sergio Alfieri, médico de Francisco, disse ao Corriere della Sera que a tarde e a noite do dia 28 foram as piores do papa durante o período de internação. O líder da Igreja Católica enfrentou um episódio de broncoespasmo, que é uma dificuldade aguda de respirar.
A crise, apesar de isolada, representou uma piora significativa no quadro de Francisco. Alfieri afirmou que, pela primeira vez, viu lágrimas nos olhos de pessoas que acompanhavam o papa no hospital.
“Estávamos todos cientes de que a situação havia piorado ainda mais e que havia o risco de ele não sobreviver”, contou.
Por volta das 14h20, pelo horário de Brasília, o Vaticano publicou em seu site um novo boletim sobre o papa. O fato chamou a atenção de alguns jornalistas que cobriam o caso, já que, geralmente, as informações chegavam primeiro por e-mail.
“O Santo Padre, no início da tarde de hoje, após uma manhã dedicada à alternância entre fisioterapia respiratória e oração na capela, apresentou uma crise isolada de broncoespasmo, que resultou em um episódio de vômito com aspiração e um rápido agravamento do quadro respiratório”, dizia o comunicado.
Pela primeira vez, o Vaticano admitia que o papa havia precisado de ventilação mecânica, ainda que não invasiva. Segundo Alfieri, Francisco estava consciente de que corria risco de vida e sabia que poderia não sobreviver pelas próximas horas.
“Vimos o homem que sofria. Mas, desde o primeiro dia, ele nos pediu para lhe dizer a verdade e quis que contássemos a verdade sobre seu estado de saúde”, afirmou.
No mesmo dia, milhares de fiéis se reuniram na Praça de São Pedro, no Vaticano, para a quinta noite seguida de vigília pela saúde de Francisco.
Os boletins já traziam a informação que o quadro de saúde de Francisco era complexo, com “prognóstico reservado” — o que indicava não ser possível prever as chances de recuperação. Jornalistas afirmavam que o clima era de angústia e, até mesmo, de fim de pontificado.
Fiéis fazem vigília pela saúde do papa Francisco em 28 de fevereiro de 2025
REUTERS/Alkis Konstantinidis
A decisão
Ao Corriere della Sera, o médico do papa revelou que, diante da gravidade do quadro, a equipe médica teve que decidir: insistir em tratamentos mais agressivos ou simplesmente deixá-lo partir. Havia o temor de que forçar novos medicamentos ou terapias comprometesse outros órgãos, criando um risco ainda maior.
A palavra final veio do próprio Francisco e de Massimiliano Strappetti, assistente pessoal de saúde do pontífice. Segundo Alfieri, a ordem foi clara: os médicos deveriam tentar de tudo e não desistir. “Foi o que todos nós pensamos também. E ninguém desistiu”, disse.
O médico contou ainda que Francisco permaneceu completamente lúcido, mesmo quando seu estado piorou.
“Ele sempre esteve ciente de tudo, mas acredito que essa consciência também foi o que o manteve vivo.”
Alfieri destacou ainda que as orações e o bom humor do papa foram essenciais para a recuperação. Do ponto de vista científico, ele citou estudos que indicam que a fé pode dar forças ao paciente. Mas, diante do que presenciou, acredita que houve algo além disso.
“Posso dizer que, por duas vezes, a situação parecia perdida, e então aconteceu algo como um milagre”, afirmou.
Ao todo, o papa ficou 38 dias internado e recebeu alta no domingo (23), quando fez sua primeira aparição pública após o período no hospital.
Enquanto esteve internado, o papa determinou que o Vaticano fornecesse boletins detalhados e transparentes sobre seu estado de saúde. Essa decisão foi vista como uma quebra de tabu dentro da Igreja Católica, que tradicionalmente adotava uma postura mais discreta em situações como essa.
Papa Francisco faz primeira aparição pública após quase 40 dias internado
Yara Nardi/Reuters
Papa em recuperação
Nesta terça-feira (25), o Vaticano atualizou o estado de saúde do pontífice. De acordo com um comunicado, Francisco continua em tratamento com terapia medicamentosa e fisioterapia, incluindo reabilitação respiratória para recuperar completamente a capacidade de respirar e falar.
Segundo a assessoria de imprensa da Santa Sé, o papa vem concelebrando missas na capela do segundo andar da Casa de Santa Marta, onde vive. Nos últimos dois dias, ele não recebeu visitas além de seus colaboradores mais próximos, e não há previsão para sua próxima aparição pública.
Além disso, a visita de Estado que o rei Charles III, do Reino Unido, faria ao Vaticano ao lado da rainha Camilla foi adiada, informou o Palácio de Buckingham nesta terça-feira. A viagem estava programada para o dia 7 de abril.
O Papa Francisco celebrando missa em hospital após um mês internado.
Sala Stampa della Santa Sede
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