Atriz de Itaquera fala da representatividade negra e de atuação em ‘Ainda Estou Aqui’

“Espero que a gente pegue esse orgulho de estar no Oscar e também consiga celebrar o nosso cinema nacional”, afirma Aguida Aguiar, atriz que atuou no filme ‘Ainda Estou Aqui’, dirigido por Walter Salles, indicado a três categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz para Fernanda Torres.

Natural de Itaquera, zona leste de São Paulo, Aguida vive a personagem Carla, uma funcionária do cartório onde Eunice Paiva, interpretada por Fernanda Torres, recebe o atestado de óbito do marido, Rubens Paiva, morto pela Ditadura Militar. Na cena, Carla também pede um autógrafo ao escritor Marcelo Rubens Paiva. 

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Estudante da EAD (Escola de Arte Dramática) da USP (Universidade de São Paulo), Aguida tem uma carreira dedicada ao cinema independente com a participação em filmes como “O Capitalismo Matou Meus Pais” (2023), “Esta Noite Minha Alma Partirá”  (2024) e “Onde Estamos Seguros”, seu primeiro longa-metragem como protagonista, que será lançado em 2025.

“Quero muito que a gente consiga entender a amplitude do nosso cinema e prestigiar diversos filmes que estão por aí arrasando. Que a gente não esqueça da beleza que é ir para uma sala de cinema”, relata.

Participação em “Ainda Estou Aqui”

O convite para participar do longa veio em março de 2023 e sua cena foi gravada em junho daquele ano.

Inicialmente, Aguida participaria da segunda fase do filme, contracenando com a atriz Fernanda Montenegro. Mas no meio do processo, a cena mudou e ela contracenou com Fernanda Torres em um dos momentos mais emblemáticos do drama: a cena do fórum onde Eunice consegue o atestado de óbito de Rubens Paiva.

“A gente tem um fator histórico muito importante que é o apagamento e a falta de documentação sobre o que aconteceu na Ditadura Militar”, afirma.

‘Há algo velado que, ainda com muita dificuldade, a gente consegue alguns respaldos do Estado. A minha responsabilidade como atriz foi entender a importância do momento histórico’

A cena mostra o momento em que a documentação foi emitida em 23 de fevereiro de 1996, depois de 25 anos do desaparecimento de Rubens Paiva, sem a causa da morte. “Essa cena acontece a partir de uma luta contínua e movimentação política de uma família que não para”, pontua.

Imagem da cena em que Eunice Paiva recebe o atestado de óbito do marido e foto da Eunice Paiva recebendo o documento @Divulgação

A cena do fórum é muito simbólica, porque Eunice frequentava muito a instituição após a morte do marido e a inspirou a cursar direito aos 44 anos. Posteriormente, ela se tornou uma figura importante para a articulação dos movimentos dos povos indígenas na década de 1990.

“É uma cena muito dolorosa. Ao mesmo tempo, com um teor muito forte sobre o que sobram das famílias que tentam resgatar suas memórias. É muito emocionante e tocante no momento em que eu entrego o documento, ver as feições, a cadência que ela [Torres] coloca em cena e o peso no documento. Para mim foi um aprendizado”, diz emocionada.

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Aguida integrou a equipe com as filmagens em andamento. A atriz revela que, ao chegar no set, foi tomada por uma atmosfera única. Trabalhar com Fernanda Torres foi um momento especial para Aguida, que já admirava a atriz por seus trabalhos no cinema e na televisão.

“A equipe que me mostrou que com uma cena, por menor quantidade de tempo fosse [de tela], eu podia fazer o máximo de coisas possíveis e aprender e passar a mensagem de uma maneira muito bonita”, relata. 

Aguida tem dedicado a sua carreira a fazer filmes no cinema independente andradelproducoes

O tempo da justiça do Estado

Aguida afirma que o filme elucida a luta de diversas famílias que até hoje cobram justiça do Estado, não somente do período da Ditadura Militar. Um exemplo atual é a violência policial que, apenas no ano passado, matou 4.025 pessoas, sendo que 90% delas eram pessoas negras, de acordo com a Rede de Observatórios da Segurança.

O movimento “Mães de Maio”, formado por uma rede de mães, familiares e amigos de vítimas da violência do Estado, é um exemplo atual de mulheres na luta por reparação, memória e justiça. O cortejo delas acontece sempre no dia 1º de abril, no centro da capital. 

‘O filme humanizou a luta dessas mulheres. Quando vejo no cinema uma história como a de Eunice, vejo uma mulher tentando carregar o tempo da justiça e o quanto ele é doloroso, árduo e diário’ 

Em diversas entrevistas, Fernanda Torres cita Hécuba, da tragédia grega escrita por Eurípedes em 424 a.C., como uma das grandes inspirações para a construção de Eunice. Aguida observa que a personagem é uma grande simbologia dramática das mulheres que, mesmo com tudo acabado, se mantém com força máxima para seguir.

“Fico pensando nessa mulher que do nada teve de ser mãe e pai e, a partir daí, entrar numa luta política de uma articulação de décadas. Eunice lutou tanto para lembrar o que aconteceu na ditadura e anos depois falece com alzheimer. Uma ironia do destino”, diz.

A atriz reforça que ainda há muita dificuldade em entender como a violência da Polícia Militar dentro das periferias também é fruto de uma ditadura.

Aguida Aguiar em “O Capitalismo Matou Meus Pais”, selecionado na Mostra de Cinema de Tiradentes @Divulgação

“A gente tem dificuldade de entender a gentrificação dos bairros a partir da ditadura, os processos de favelização do Rio de Janeiro e principalmente, porque eu tenho que pedir pro meu irmão sair com o RG. Isso é resquício da Lei de Vadiagem”, pontua.

Para ela, é necessário trazer o debate de raça ao tratar da ditadura e pesquisar o que aconteceu nos quilombos e nos aldeamentos no período da ditadura.

Além de resgatar figuras importantes invisibilizadas, como uma grande inspiração chamada Malunga Thereza (1930-2012), uma atriz politizada que atuava como espiã e até hoje não se sabe a importância da sua atuação durante a ditadura.

Agência Mural

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