
Caro(a) leitor(a),
Quantas vezes você diminuiu seus sonhos, opiniões, desejos e até o tom de voz para se ajustar a um espaço que, no fundo, nunca foi seu? Pode ser em um relacionamento, no trabalho, ou até mesmo em círculos de amizade. Quantas vezes você encolheu para caber?
Fomos treinados, ao longo da vida, a acreditar que ceder, adaptar-se e evitar conflitos são virtudes. E em muitos momentos, de fato, são. Mas existe uma linha tênue entre a flexibilidade saudável e o ato de se anular. Quando ultrapassamos esse limite, deixamos de ser quem somos para caber em moldes que, inevitavelmente, vão nos sufocar.
Ao tentar caber em lugares que não nos acolhem por inteiro, acabamos perdendo algo essencial: a conexão com nós mesmos. Ajustamos nossas personalidades, valores e até alegrias para sermos aceitos. Mas a verdade é simples e brutal: ninguém pode ser feliz vivendo encolhido. Você já se perdeu de si a ponto de sentir saudades?
Parece pesado, não? Mas não é difícil perceber. O ato de “encolher-se” exige esforço contínuo, uma energia que consome aos poucos nossa essência. E quando finalmente olhamos para o vazio interno que fica, o preço já foi pago: a perda da autenticidade.
Quantas vezes nos vemos perdidos (as) em relacionamentos, onde crescemos separados (as), estando acompanhados (as), mas no fundo vivemos sós. Quantos casais permanecem sem mais nada em comum, sem brilho olhar, sem ânsia de viver, por comodismo, dinheiro, filhos, e tantas razões onde ambos, de tão encolhidos, não mais se reconhecem e nem mesmo conseguem entender o que os mantém juntos?
É exatamente isso. Ao encolhermos para caber, até a percepção de quem somos se embaralha. É como se a versão de nós que mostramos ao mundo fosse um reflexo torto de algo maior — aquilo que fomos destinados a ser.
Mas, caro(a) leitor(a), encolher-se não é sustentável. Por mais que ajustemos o tamanho, o molde do outro jamais será confortável. Ninguém quer viver no desconforto de não ser.
A saída é crescer. Voltar ao tamanho original. Ocupando espaço, dizendo “não”, “basta”, “acabou”, e permitindo que as pessoas certas cheguem perto, sem precisar diminuir quem somos. Não é sobre o outro (a) é sobre você. Não é sobre caber; é sobre pertencer.

Não é sobre caber. É sobre pertencer – Foto: Getty Images/ND
Em “Tente Outra Vez”, Raul Seixas traz uma verdade que se aplica aqui:“Veja, não diga que a canção está perdida / Tenha fé em Deus, tenha fé na vida / Tente outra vez.”
Não há vergonha em perceber que encolhemos. Mas há poder em decidir crescer de novo. Porque, no fim, a maior liberdade está em ser. E ser plenamente, sem moldes, é a única maneira de viver verdadeiramente. Onde você não couber, em sua grandiosidade, inteiro (a), não fique! Você não é o pé que precisa caber no sapatinho de cristal como no conto de fadas.